
Quase 20 anos atrás, quando corremos nossa primeira Maratona de Porto Alegre, a sensação era completamente diferente da que existe hoje
Por Cado Santos e Ju Cassino – MilkA Maratona de Porto Alegre de 2008 foi nossa primeira maratona. Sim, corremos juntos. Como amigos que treinavam juntos, decidimos fazer essa estreia lado a lado. Ainda era uma prova muito “de corredor”. Menos barulho, menos gente, menos espetáculo. Não existia essa atmosfera de grande evento que hoje toma conta das maratonas brasileiras. Não existiam redes sociais no formato de hoje, transformando provas em conteúdo, nem essa lógica de experiências compartilhadas em tempo real.
Era mais silencioso. Muito mais silencioso. Lembramos do frio da largada, do percurso ainda com características bem diferentes das atuais e da sensação de correr por uma cidade que respeitava a prova, mas que ainda não parecia entender totalmente o tamanho do que estava sendo construído ali.
Naquela época, Porto Alegre já tinha reputação entre corredores. Já era conhecida como uma prova rápida, organizada e séria. Mas ainda estava longe de ocupar o espaço que ocupa atualmente no imaginário da corrida brasileira.
Quase duas décadas depois, a transformação impressiona. A Maratona Internacional de Porto Alegre chegou aos 40 anos reunindo cerca de 25 mil participantes em suas diferentes distâncias. Tornou-se destino nacional, prova-alvo para milhares de corredores, plataforma relevante para marcas e referência quando o assunto é experiência do corredor.
E nada disso aconteceu por acaso. Talvez o mais interessante da história de Porto Alegre seja justamente que ela não cresceu da forma como boa parte do mercado cresce hoje. Ela não se tornou relevante porque gerou moda ou conversa nas redes. Tornou-se esse grande evento porque construiu confiança.
Enquanto muitas provas surgiam tentando chamar atenção pelo tamanho da medalha, pela ativação mais instagramável ou pelo entretenimento, Porto Alegre foi fortalecendo algo muito mais difícil de construir: reputação. Uma reputação construída no boca a boca, na experiência consistente e na sensação de que o corredor seria respeitado.
Isso parece simples, mas talvez seja uma das coisas mais difíceis de sustentar no mercado atual. Especialmente porque a corrida mudou muito nos últimos anos. A corrida cresceu. Novos corredores chegaram. As provas ficaram maiores. As marcas passaram a olhar para o esporte com muito mais atenção. O running deixou de ser apenas prática esportiva e passou a ocupar um espaço cultural, social e comportamental.
E junto com esse crescimento veio também um corredor mais exigente e que percebe rapidamente quando uma prova entende de corrida. Porto Alegre entendeu isso antes de muita gente.
A história da prova ajuda a explicar bastante coisa. A maratona nasceu em 1983, criada pelo CORPA, clube formado por apaixonados por corrida de rua em um momento em que o esporte começava a crescer no Brasil, influenciado pelas grandes maratonas internacionais. As primeiras edições eram quase artesanais: pouca estrutura, hidratação, marcação manual, trânsito ainda pouco controlado e muito trabalho voluntário. Mas mesmo naquele cenário já existia uma obsessão por fazer a prova evoluir.
A grande virada parece ter acontecido justamente quando a organização passou a enxergar a experiência do corredor como prioridade estratégica. A entrada de Paulo Silva na organização, em 1994, foi um divisor importante nessa trajetória. Não apenas pela profissionalização técnica da prova — com protocolos, logística, relação com autoridades, exames antidoping e melhorias estruturais —, mas pela construção de uma visão de longo prazo. Algo que hoje parece óbvio, mas que estava longe de ser comum no mercado brasileiro de corrida naquela época.
Porto Alegre foi entendendo que uma grande maratona não é construída apenas com percurso. Ela é construída com credibilidade. Isso aparece em várias decisões importantes ao longo da história da prova. A mudança da largada para a região da Orla, por exemplo, veio de um entendimento técnico sobre fluidez, altimetria, velocidade e experiência geral.
O percurso plano, o clima frio, a baixa amplitude térmica e a organização consistente transformaram Porto Alegre em uma prova conhecida por performance. Mas reduzir a prova apenas a uma “maratona rápida” seria simplificar demais o que aconteceu ali. Porque o que faz tanta gente voltar para Porto Alegre não é só o relógio. É a sensação de legitimidade.
Existe algo muito forte quando uma prova consegue manter a percepção de que ainda é feita pensando em quem corre. E isso pode explicar por que Porto Alegre cresceu tanto sem perder identidade.
Nos últimos anos, muitas provas brasileiras cresceram rapidamente. Algumas se consolidaram. Outras viraram tendência momentânea. Algumas explodiram nas redes sociais antes mesmo de construírem uma relação verdadeira com os corredores. Porto Alegre seguiu seu próprio caminho: um crescimento mais lento, menos barulhento e muito consistente. Como se a prova tivesse entendido antes do mercado que confiança também gera desejo.
A entrada da Olympikus nos naming rights reforça essa percepção. Não parece apenas um patrocínio, mas a associação entre duas marcas que compartilham algo semelhante: legitimidade construída ao longo do tempo.
Num momento em que o running brasileiro vive uma explosão de interesse, Porto Alegre funciona quase como um lembrete importante para o mercado: corrida continua sendo feita de histórias, encontros, memórias e da sensação de pertencer a algo maior do que uma simples prova.
A Maratona de Porto Alegre não virou gigante por acaso. Tornou-se gigante porque conquistou algo que não se compra com marketing, mídia ou tamanho de evento: respeito.
Cado Santos & Ju Cassino